quarta-feira, 12 de março de 2014

Radio Silence

E se todas as ondas congelassem? Se cada movimento parasse agora? Se as respirações cessassem e ninguém fosse embora? Se quem está indo embora, deixasse de ir para ficar. Os meus olhos não secariam e as lentes não ficariam coladas, ardendo sem que pudesse fazer nada.O tempo continuaria a andar, mas todos nós ficaríamos petrificados naquele instante. Por muitos instantes. Tantos, que nos cansaríamos. Desesperaríamos e depois nos cansaríamos de desesperar. Ficaríamos incomodados, depois incomodados por estar incomodados e depois fartos do incômodo, querendo reagir. Aí seria primavera. Cada coisa, cada célula despontaria lentamente, no seu tempo, redescobrindo para onde quereria ir. Girassóis iriam para o sol. Um deles, mais invernoso, se transformaria numa tulipa e pediria por água. Eu desentorpeceria os músculos lentamente, me apercebendo deles um por um e me espreguiçaria com calma, decidindo cada passo como se todos fossem uma opção. Aperceber-me-ia que tinha esquecido tudo e escolheria, provavelmente dar-te a mão, intuitivamente, para me ajudares a recuperar aquela memória velha de colocar toscamente um pé à frente do outro. Quereria correr e cairia. Involuntariamente, riria.
Como eu, existiríamos todos por um tempo, nessa tentativa de descobrir o que fazer com tantos membros e apenas um tronco. O mundo estaria como era, nós não. O mundo não estaria como era.

Talvez fosse isso que acontecesse se todos os rádios do mundo deixassem de funcionar. Ou talvez todos os aviões colidissem. Ou talvez já ninguém ligue realmente para rádios. Ou talvez chovessem cartas de reclamação. De qualquer forma, o rádio precisa de perder a frequência de vez em quando.
Custar-nos-ia se assim não fosse.


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